quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O mundo não acabou mas o texto de Téo Fronzi vale a pena!

É agora e é já, não vou perder mais tempo nessa vida. Ela é preciosa demais para se deixar levar por qualquer coisa abstrata que nos rouba perceber a singularidade de cada instante ao vislumbre de um sorriso. O registro é uma das partes mais importantes dentro do navio do guerreiro, aquela energia pulsante que só aparece no final dos filmes e livros que as despertam, das horas em que observo os olhos e os sorrisos das pessoas que me esbarram por aí a fora. Se eu o deixar de lado os tempos virão e o anoitecer de cada dia me levará embora a preciosidade do sentimento relâmpago de certeza que colhi em cada instante de autoconhecimento de minha vida.
Agora esse vivi não vive mais. Agora preciso dizer adeus a certos hábitos. Um adeus não dual, um adeus que não volta, pois creio que nada volta, mas tudo se transforma. O Adeus de hoje poderá ser o olá de amanhã vestido de um jeito diferente. Lá por algum momento da vida, ao beber aquele preciso copo de água pela manhã e vislumbrar os raios do sol a começar suas cócegas nos olhos, me ocorrerá como a constatação de minha própria insignificância a tamanha energia desperdiçada em buscar entender e julgar os acontecimentos que me ocorreram, como se estivessem dentro de um manual que escolhi “eticamente” aceitar para encenar a vida. 
Isso não é uma história. Pare de revisar o texto. Lute contra esse demônio que você mesmo construiu para impedir que nossos gritos saíssem de dentro e tocassem no que nos levanta e nos faz caminhar. O nosso aqui é o que sai de dentro. É o que não nos faz ficar entediados. É o que não conhece a palavra tédio. É o eterno ser humano que percebe que não está sozinho nessa vida e desperta, pelo sentimento vivido com mais pavor nesse mundo enfermo, a compaixão.
Não existe limite à vida. Viver a vida é aprender que a vida é um sonho. Todo o fenômeno da vida é acompanhado por um observador. Sem observador, não há fenômeno, nem existência, e nem significado. A vida é o maior dos fenômenos e não existe sem o observador. Ele, ainda cedo, não é você. Ainda não. Mas ele pode ser, se você assim o escolher. 
Deixar que toda a reprodução histórica da ignorância seja o chiclete grudado no seu tênis, que te impede de andar descalço, por medo? Ah, veja que pena, à estes todos desejo sorte, pois o vão precisar. 
O sonho do guerreiro começa com o desespero de um grito romântico cego. A cegueira que a princípio parece própria, mas que logo se percebe que de própria só se faz o nome. O primeiro sentimento é a dor, que de razão não se faz existir, e que simplesmente existe. Contudo acompanhada pela ansiedade de precisar amar para viver. O sonho do guerreiro se finda quando a pedra surge no meio do caminho... Primeiro se fez chorar pela derradeira aparição. De repente do escuro do palco acontece o surto do derradeiro coringa brotando com seu gentil convite a retirá-la do meio do caminho. O despertar do guerreiro acontece neste exato instante. O convite lhe parece interessante, dinheiro, fama, glória, respeito. Respeito? Pois é, o desespero do coringa começa a se assentar. Para vosso presente coração, são as lágrimas do mundo que vivem e não cessam naquela pedra. Aquela pedra não se faz sem mim. Sou eu que a observo e não sou eu quem lhe dará as costas. A onde eu caí é a onde eu vou viver. Eu caí em um tempo que me parece adoecido. E por este sentimento é que faço brotar sem esforço a coragem de carregá-la em meu peito. Dar as costas ao mundo como se eu fosse um semideus de bengala, apoiado nas instituições falidas e moribundas do homem sem homem, das práticas mais viscerais registradas ao longo do tempo, provido de uma fonte inesgotável de energia própria como se fosse possível ser humano sozinho.
A vida do guerreiro começa com esse despertar. Não importa o que digam sobre meu caminho, nenhum destes que saem dizendo por aí dizem por si mesmos. Todo o discurso, se não ouso dizer vossa linguagem, está impregnada de meandros obscuros que nenhum destes bobos resolveu enfrentar pelo juízo próprio. Por isso que Freud é o grande curandeiro desta humanidade, o indivíduo que resolve todos os problemas do “homem”. Resolve problemas, pois mostra que todos os problemas do “homem” de hoje são resultado de práticas absurdas, a meu ver, que se instalam desde o parto. A sociedade que estabelece, molda e engessa no espírito livre de uma criança a perda de brilho e os futuros cânceres sofridos aparecerão como uma simples lástima.
O guerreiro não lastima absolutamente nada. O guerreiro percebe que jogar o jogo da ignorância não é viver. Com a habilidade nutrida por sua energia constante ela usa seu recorte histórico no tempo enquanto vivo para colocar a sua marca, seu espírito, seu intelecto, sem nenhum registro público e diploma, sem glória e sem fama. Sob profunda observação e escolha, livre da ignorância comum dos homens sem face do mundo, o guerreiro acorda pela primeira vez com cara própria e despertado pelo sentimento de amor.
Com o copo vazio circunda a cidade, o campo, o universo, a natureza e os sonhos, levando consigo somente o saber da delicada certeza sobre a incerteza. Copo vazio de pretensões, vazio de orgulho, vazio de teimosia, vazio de insistir nos discursos que um dia foi apegado, vazio de tentar lutar contra si mesmo. Pra você dói em ouvir isso? Então saiba que quem está com o dor é o invisível do baralho, aquele que o faz acreditar que sabe o que é melhor para você, aquele estudado por Freud e que não passa de uma ilusão muito bem construída. Para os que não sentem dor e para os que sentem, saibam que neste estado quase louco ou mendigo de caráter é o primeiro contato com o significado real da vida. 
Aqui não venho construir poemas sobre o que já vivi deste estado, sabendo que sempre o farei ao longo de meu tempo neste barco. Esse momento serve como um pergaminho inicial, ou um testemunho de meu cantar mais profundo. Este, recém-chegado, deixado num final de tarde com a esperança de brotar nos observadores do futuro os sonhos dos próximos guerreiros e piratas que vem navegando por aí, rumo ao bater livre do medo de seus próprios corações.
Assim me despeço de um momento, que olha para trás com carinho, e que se vira com ansiedade dando passos a mim mesmo.
30/11/12

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O dia em que ninguém foi à aula

O relógio despertador vermelho em cima do criado mudo ao lado da cama já marcava cinco horas da manhã, contudo, nesse dia, ele não despertou como de costume. Não que nada de misterioso houvesse acontecido durante a noite, nem que as pilhas estivessem fracas - a única explicação para o presente fenômeno era o esquecimento que acometeu quem a essas horas deveria já estar desperto. Esse alguém que se esquecera de ajustar seu horário de acordar se chama Henrique e dá aulas de história em um colégio não muito longe de sua casa. Na noite anterior chegou extramente cansado após dar nove aulas durante o dia e ter somente uma hora de almoço entre elas. A caminho de casa enfrentou tamanho trânsito que transformou um trajeto que em condições normais leva trinta minutos, em uma romaria de uma hora e meia de duração. De modo que Henrique chegou extremamente cansado e mal podia olhar para sua mochila, cheia de provas e trabalhos a serem lidos e corrigidos. Ao abrir a porta da sua casa só pôde arremessar a mochila para trás do sofá e torcer para que duendes misteriosos fizessem o seu trabalho, pois ele ainda teria de cuidar de uma pilha de louças consideráveis e depois cozinhar. Lavou a louça, mas não cozinhou, terceirizou o serviço. “Infelizmente ainda não tem um corretor de provas delivery”, pensou.
 No final da noite, o sono começava a embalá-lo em diversos pensamentos que rumavam ao bel prazer de sua imaginação. Assim pensava em uma viagem que realizara há muitos anos atrás com os amigos da faculdade, amigos que já não via mais. Sabia que dos dois amigos, um virara psicólogo, com consultório particular e o outro designer de alguma marca famosa, cujo nome ele evidentemente sempre esquecia, pois não ligava pra esse negócio de moda. Os amigos o remetiam aos lugares visitados, às sensações que novas paisagens podem proporcionar aos nossos sentidos, às conversas com os novos conhecidos, ao retorno à rotina e a outros devaneios que se seguiram.
A cidade cor de cinza em que vivia nada tinha a ver com os mundos que imaginava quando jovem, naquela época seu mundo era cheio de poesia. Na época, seu mundo também era cinza, mas ele não deixava que nenhuma mancha borrasse por completo sua esperança e sua imaginação; talvez a vida fosse menos complicada. O cansado professor já um pouco envelhecido e cético não sabia mais distinguir exatamente o seu presente e o seu passado, a sua velhice e a sua juventude.
 Envolto nesse fluxo de pensamentos o professor apagou. Apagou de verdade, pois não se lembrou de programar o alarme, de trocar a roupa, de tomar um banho antes de dormir, de ler o que precisava ler, levado por todos os fios que se teceram em seus pensamentos, fios que lhe prepararam a travessia rumo ao inconsciente e ao sono profundo. Quando seus olhos se abriram, Henrique se encontrava ligeiramente atrasado, o que tornou o início do seu dia um tanto mais caótico. Logo que se deu conta do horário, correu para o banheiro lavar o rosto, enquanto pensava se daria tempo de tomar um banho. Se seu banho demorasse demais, perderia o ônibus que o faria chegar a tempo na escola e não conseguiria realizar o ritual que se acostumara a fazer antes de cada aula. Gostava de chegar antes dos alunos e distribuir seus materiais na mesa de forma organizada e metódica, logo após escrever na lousa os principais tópicos de sua aula e esperar os alunos sentados.
 Cada segundo que ficava ali, absorto em seus pensamentos, olhando seu rosto molhado na frente do espelho, significava mais um segundo de atraso. Assim, Henrique decidiu somente escovar os dentes, tomar uma xícara de café requentado do dia anterior e colocar uma roupa qualquer. Quase que ele ia se esquecendo da mochila que jogou atrás do sofá assim que chegara em casa. Pegou a mochila e as chaves, trancou a porta e sem olhar para trás se dirigiu ao elevador. Incomodou-se com a demora, deu um leve pontapé na porta e pensou “esses vizinhos que ficam segurando o elevador.”. Chegando à porta do prédio, viu a lotação se aproximar, acelerou os passos, que de tão acelerados já estavam correndo e conseguiu parar o ônibus e sentar num dos últimos assentos. A viagem foi muito rápida durou apenas vinte minutos, nada do trânsito habitual, nada de buzinas.,, a única novidade era o atraso! Quando desceu do ônibus disparou rumo a sua sala e nem deu o tradicional bom dia à secretária, pois costumeiramente ainda teria que vencer uns bons quatro lances de escada Henrique não sabia o que era chegar atrasado e isso o perturbava profundamente. Acelerou e ampliou suas passadas nos degraus, vencendo dois a três de uma vez, quase caiu com o peso da mochila, porém se reequilibrou e chegou ao último patamar, diminuindo a velocidade com a proximidade da sala. Foi então, quando abriu a porta, que percebeu com enorme sobressalto que não havia ninguém na sala de aula.
 Ao constatar que a sala estava vazia, pensou aliviado que não estava tão atrasado assim, que no fundo deveria ter esquecido que havia alguma atividade programada para os alunos e por isso eles não tinham chegado ainda. Ele então calmamente distribuiu seu material, que era constituído por um livro didático, um caderno onde anotava suas aulas e uma caneta para eventuais necessidades. Cada coisa ficava do lado da outra, por ordem de tamanho, da esquerda para a direita, primeiro o livro, depois o caderno e por último a caneta, rigorosamente alinhados.
 Assim que terminou sua organização, o professor aguardou durante dez minutos contados no relógio localizado no fundo da sala de aula,- relógio este que está sincronizado com o sinal da escola e caracteristicamente dita o tempo escolar. No entanto, esses dez minutos foram os dez minutos mais estarrecedores de sua carreira, pois foram os minutos mais silenciosos que presenciara desde que se tornou professor. Em toda a escola não se podia ouvir nada. Nenhuma carteira sendo arrastada, nenhum outro professor dando aula, nenhum som estridente de giz, nenhuma conversa sorrateira entre os estudantes, nenhum passo no corredor de algum aluno atrasado. Silêncio que se tornou mais preocupante depois que os dez minutos viraram vinte, depois vinte cinco e por fim trinta. O mesmo silêncio percorreu as carteiras da sala que ele ocupava e o monólogo que estabelecia com ele mesmo já não tinha mais graça. Ele pensou então em sair da sala, mas antes disso olhou pela janela da porta, como um soldado que verifica se seus reforços salvadores estão chegando e nada viu. Pensou em se dirigir imediatamente à sala de algum colega para perguntar se o outro sabia de algo, mas não queria se sentir traído por seus alunos ao ver uma sala de aula cheia e silenciosa, enquanto a sua sala estava vazia e triste. Seria o seu fim.
 Nesse impasse se decidiu por uma breve observação no corredor para ver se não havia realmente nenhum aluno o esperando, achando que ele havia faltado, pois agora admitia a possibilidade dos alunos terem chegado antes dele e não o vendo em sala, terem se auto dispensado. Henrique então se encaminhou para a porta e tentou abri-la bem delicadamente tentando não fazer nenhum barulho, girou a maçaneta milímetro por milímetro e ao colocar a cabeça para fora da sala, antes de todo o corpo, pôde compreender todo o cenário que vivia. No mesmo instante em que ele olhava para o corredor vazio, todos os seus colegas se entreolhavam com um pedaço da cabeça pra fora da sala de aula. Todos com a mesma pergunta, questionando o porquê suas salas estavam fazias? O fato é que naquele dia, todos os alunos faltaram. Henrique lembrou que na pressa de chegar na sala de aula, não havia reparado que a escola estava vazia, não havia percebido que percorreu o caminho até sua sala com grande facilidade, não havia erguido o olhar para o alto, não havia notado o que agora lhe era revelado com tamanha intensidade.
 Logo os corpos dos professores se deixaram levar para o corredor e todos perguntavam a mesma coisa: “Aconteceu com você também?”. A resposta vinha com um misto de alívio e também de incompreensão. Alívio por não ter sido o privilegiado e incompreensão do cenário que estava desenhado. Logo, um deles, não se sabe exatamente quem, foi procurar a direção que naquelas alturas do campeonato, já deveria estar a par do ocorrido. Os outros começaram a ligar para colegas de profissão que tinham aulas no mesmo período e muitos outros começaram a receber ligações, pedindo a confirmação do fenômeno. A direção e a coordenação da escola, assim que se deram conta do que se passava, se prepararam para atender milhares de ligações de pais desesperados querendo saber onde estavam os filhos que não foram a escola, ou avisos de doença, quiçá de algum acidente, mas a essa ansiedade correspondeu um completo e impenetrável silêncio das linhas telefônicas.
 A direção, sem saber que instrução dar aos professores, pediu para que eles cumprissem seus horários normalmente, já que mais hora, menos hora os alunos deveriam chegar normalmente e todos descobririam que aquilo não passava de mera provocação dos estudantes. Ao contrário do que supunham, os períodos passaram e nem mesmo sombra dos jovens. Assim foi em todos os estabelecimentos de educação daquela cidade e ao final do dia, o secretário de educação municipal já sabia que o secretário de educação estadual também já sabia, que o ministro da educação já estava sabendo do ocorrido e dera instruções para manter o assunto em completo sigilo, para evitar que tal fenômeno se alastrasse por todo o estado ou ainda pelo país.
 O ministro apostava que isso era apenas coisa de uma juventude rebelde, que tomou tal atitude como modo de afrontar os poderes públicos e a todo o edifício social, mas que isso não poderia ter maiores consequências dado que, em suas palavras, “todos dessa juventude não sabem o que querem da vida.”. Antes de o ministro orientar os respectivos secretários, vários professores resolveram tomar atitudes frente a insustentável falta coletiva. Tudo bem que os alunos tenham o direito de se ausentar, mas todos usarem essa prerrogativa no mesmo dia, já era abusar. Alguns colegas de Henrique, foram sondar com alunos que moravam vizinhos à escola o porquê da ausência e todos davam justificativas evasivas, “estava cansado”, “tive febre essa noite”, entre outras desculpas clássicas. Essas respostas vagas não satisfizeram a maioria dos docentes, que procuraram nos jornais, manchetes de protestos ou levantes estudantis, mas nada encontraram. Henrique contentou-se em fazer o caminho de volta para casa, tentando imaginar o que cada estudante seu estaria fazendo no horário em que deveria estar na aula, buscando entender qual motivo os levara a tomar tal atitude, mas parecia que quanto mais ele olhava para questão, mais incerta ela se tornava - só cabia dormir e aguardar o novo dia que viria, quem sabe, cheio de som e fúria.
 O fato é que no dia seguinte Henrique refez seu ritual habitual pré-aula e assistiu a comédia que presenciara no dia anterior se repetir. Por quatro dias foi assim - como se fosse uma volta no tempo, o primeiro dia de sumiço dos jovens retornava, e retornava e retornava. Para o professor aquilo não podia ser obra do mero acaso, era preciso que houvesse alguma combinação, arranjo prévio entre os estudantes- sem dúvida aquele episódio era o evento mais estarrecedor que vivera em todos os seus anos de magistério, “essas redes sociais de hoje em dia são um perigo”, pensou. A gravidade do problema não podia ser escondida por muito tempo e logo a notícia começou a se espalhar por toda a cidade, e o Ministério percebeu que tal cidade poderia se tornar um verdadeiro câncer da educação no plano nacional. Portanto, como forma de buscar uma solução para o problema e dar uma ocupação para os professores, que por hora estavam desocupados, resolveu pedir que cada escola fizesse uma reunião de conselho escolar com todos os professores, funcionários e diretores, para discutir e propor alternativas de saída para essa crise, jamais vivida na história do país.
 Assim, no dia seguinte do anúncio da orientação do Ministério, a escola de Henrique convocou todos os membros do corpo escolar, menos os discentes, é claro, para a reunião extraordinária. A diretora da escola ainda enviou envelopes lacrados, escritos na capa “ultrassecreto”, escrito em vermelho, para comunicar a reunião.
 Henrique foi o primeiro a chegar ao conselho de classe, as cadeiras estavam em posição circular e ele tomou assento no fundo da sala, pegou um livro que começara a ler naqueles dias em que não havia aula para dar, já que também não havia ninguém para ouvi-lo. Aos poucos os outros colegas foram chegando e se acomodando. Como é de praxe a organização do espaço se deu por afinidades e inimizades. De modo que era possível distinguir claramente os grupos de sempre. Todos conversavam com ar grave, como se ali estivesse para acontecer um julgamento de alguma corte marcial sobre um caso de guerra ou violação dos direitos humanos. O fato é que se ouviam cochichos por toda a sala, como se o tema das conversas não devesse ser dito em alto e bom som, todo o conteúdo dos diálogos poderia estar sendo gravado ou na pior das hipóteses poderia ser usado contra os presentes.
 A diretora foi a última a chegar, vestindo um conjunto preto. Estava de luto, mas ninguém sabia o motivo exato, especulavam que um parente distante dela havia falecido pouco antes da evaporação, expressão que começava a ser usada por todos para falar sobre as faltas dos estudantes. Logo que a senhora de preto entrou na sala, cessaram os zunidos das conversas e estabeleceu-se um silêncio sepulcral. Todos à espera das palavras da diretora. Ela sentou-se calmamente na cadeira que estava mais próxima da lousa e dava visão para o fundo da sala e coincidentemente ficou em face de Henrique. Não que se desgostassem, havia no entanto algum resquício de uma situação mal resolvida no passado, algum episódio de discordância ou alguma desatenção aos mecanismos burocráticos por parte do professor, mas nada que o fizesse ser odiado pela “chefe”.
 Após sentar e se acomodar, ela inspirou e expirou o ar lentamente, ao mesmo tempo em que passou os olhos por todos os presentes e iniciou sua fala:
- Professores, estamos todos aqui presentes para essa conversa dada a gravidade do problema que temos enfrentado nas últimas semanas. Como todos devem saber, “a evaporação” não chegou ainda ao fim que esperávamos. De forma que fomos convocados pelo governo a nos reunirmos e procurarmos uma solução para situação que está dada diante de nós. Precisamos nos posicionar o mais rapidamente possível, pois de nosso empenho, depende o futuro de nosso país e de nossas amadas crianças.
No que Henrique começou a refletir sobre a expressão “amadas crianças?”,seu pensamento foi interrompido pela fala da professora de literatura, que interviu com voz exaltada:
- Senhoras e senhores, nós todos sabemos que esse fato que está ocorrendo conosco é uma obra arquitetada de forma fria e calculista por algumas maçãs podres, que estão contaminando todo o nosso corpo estudantil. Nós tentamos de tudo para corrigir esses meninos e lhes oferecer um pouco de ordem e disciplina, mas o que eles nos dão em troca? Indiferença, desrespeito e incompreensão. Nós que fazemos tudo por eles, não merecíamos isso. Não merecíamos.
A jovem professora que começava a ficar com a voz embargada, e com um choro engasgado que lhe impedia de continuar a discursar, prontamente foi acudida por seu conjunto de apoiadores que aprovavam vírgula por vírgula o que ela falava. Enquanto secavam suas lágrimas um membro de um grupo opositor ao seu, desta vez um professor de física, levantou e tomou a palavra:
- Meus caros colegas, não posso deixar de me condoer pelas palavras da professa, contudo devo fazer um aparte. O que estamos tomando como uma ação maquiavélica por parte dos jovens, não pode passar de algo passageiro. Esses meninos e meninas não sabem o que fazem, eles querem agarrar tudo ao mesmo tempo e não veem que assim acabam por deixar tudo ir embora. Esse espírito de rebeldia juvenil um dia se aplacará e eles verão que o que fizeram foi um grande erro e certamente voltarão chorando pedindo nosso perdão. Minha sugestão é que esperemos, eles hão de voltar, basta que conversemos com seus pais e tudo será resolvido.
Subitamente Henrique levantou calmamente de sua cadeira e foi caminhando em direção à porta em silêncio. Todos ficaram bestializados com a ousadia do colega, que ousava virar as costas aos companheiros de profissão no momento em que todos eles precisavam estar unidos.
A diretora estupefata ordenou que ele permanecesse na sala em alto e bom som. Ele somente lançou um breve olhar para ela antes de abrir a porta que a deixou congelada dos olhos até o fim de sua espinha dorsal. Naquele um segundo, ele percebia que o verdadeiro desejo da mulher era sair porta afora junto com ele, porém ela não podia se render a tal desejo. Henrique saiu e a diretora sentou abalada, aparência que fez questão de desfazer tão logo teve de encarar todos os presentes, mas só conseguia pensar “por que não faço o mesmo que ele?”. A professora de literatura então retomou a palavra.
Enquanto a discussão seguia, Henrique passava pelos corredores da escola e não conseguia expressar em palavras tudo o que sentia e pensava. Sua imaginação o levava novamente a sua juventude e ele revisitava todo aquele misto de energia e superpoderes que embala o imaginário dos jovens. A media que recordava essas sensações,percebia o quão distante delas se encontrava e por consequência o quão distante estava de seus alunos. Havia algum tempo que ele não considerava o conselho escolar uma instância de deliberação democrática, contudo esse último foi para ele a gota d’água. Certamente não tinha uma solução para o problema, porém sabia que ir buscar as respostas nos mesmos discursos e lugares habituais não iria melhorar o panorama em que viviam.
Se por ventura naqueles dias de vazio e silêncio na sala de aula, ele percebera alguma coisa, essa percepção é de que não havia respostas prontas para serem dadas. Ele não tinha belos discursos para dizer em frente aos colegas,. Ao contrário,tinha dúvidas que começaram a consumi-lo internamente e só faziam aumentar a cada dia que os alunos se recusavam a assistir sua aula. Que sentido tem falar ao vazio? Que querem eles dizer com esse silêncio? Que significa essa ausência em massa? Essas eram questões que não podiam estar em qualquer cartilha, pois nunca houvera uma situação igual. Foi pensando nisso que ele desceu os últimos degraus em direção a saída da escola. Partia sem olhar para trás.
Levado então por suas interrogações a vagar pela cidade, lembrava-se de novo de seu tempo de escola e universidade, e todos os incômodos que passou. Não era escutado, lia e fazia milhares de coisas sem sentido, não queria ir para as aulas. Lembrou-se de que hoje como professor a vontade de não ir para as aulas, de alguma forma,ainda permanecia. Esse pensamento paralisou sua caminhada e fez com que ele olhasse ao seu redor.
O tempo para ele então se suspendeu por alguns átimos de segundo, em que ele pôde observar alguns de seus alunos que estavam lendo em uma praça ali próxima, ouvia o barulho dos passes e chutes de outros estudantes seus que jogavam bola, sentia a paixão de um casal de sua sala de aula, que passeava de mãos dadas e tocava mesmo distante em todos os jovens ao seu redor. Encontrava-se a quilômetros e quilômetros de distância deles, mas, no entanto, se perguntava então como poderia encurtar essa distância e em que momento deixou-se separar deles. Qual foi o ponto em que os desejos e aspirações de ambos tomaram direções diferentes e sentidos opostos? Quando seus sentidos ficaram insensíveis a eles?Quais então as possíveis soluções para que ambos não convivessem sempre em uma infinita sala vazia...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012


eu quero viver o fim de tudo com a histeria coletiva de um câncer terminal

Em meio...

Por Thiago Pereira

Em meio ao cosmo do amor
já dado, e forte
Surgindo por entre as fendas carnais
sangrentas das orgias rotineiras
Eis que surge você, minha ninfa!
Fruto da mais pura inspiração
Na árvore sem ramos nem raízes
do mundo neblinioso noturno
Surge você, ardente
Rubra na santidade carnal
Como sangue burulhando em correntezas
sob o céu, não mais azul, tomado por raios benditos
refletidos por todos os seres ao redor
Tu, que cinges ardente
que encosta teus lábios nos meus
ao que sinto o sopro da vida
Roubando espaço, dantes de músculos e sangue
Como se a transubstancialidade do céu dantesco
existisse em meu corpo
Não existo mais! Sou parte de vós!
Rouba-me meu limite, expõem-me ao
vermelho que lhe erradia
Como é feliz teu beijo
como é triste pensar que o caso
aconteceu no teu espaço metafísico
Que o rubro me tome o ventre, meus órgãos, meu espírito!
Quero contigo ser o sol
Contido num beijo escarlate

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

As curiosas e estranhas recordações de um político


 por Marcus Repa

Quatro anos longos se passaram até a data presente: eleições. Não me lembro como o calendário andou tão apressado nesse tempo, mas não posso deixar de dizer que sinto um pouco de euforia nesse momento. Aquela alegria de se dizer de um partido ou de algum candidato. São esses instantes que nos tornam patriotas ao ponto de defender um mero político como nosso familiar mais próximo, todas nossas frustrações pessoais caem por terra no anúncio da vitória de nosso predileto, ou somos tomados pela fúria ao assistir o opositor levando tapetes vermelhos, comentários positivos e oba-obas da imprensa. Escrevo do futuro, pensando no passado e de como estou aqui dentro de um gabinete. Lembro-me como se fosse hoje, como trilhei o caminho da política e me tornou um homem público e um cidadão respeitado.
            Numa manhã de domingo abri meu jornal e comecei, como de costume, pela sessão dos esportes, afinal de contas preciso me divertir um pouco. Antes de mais nada preciso me apresentar, mas devo preservar minha identidade, pois, nesse mundo atual qualquer nome pode ser pesquisado e ligado à outras fontes de informações. Cruzando os dados saberão quem eu sou verdadeiramente. Então sou L., continuemos. Em minha prazerosa leitura e virada de páginas me deparei com algo assustador sobre a política: escândalos e mais escândalos de governo com troca de ministros, chefes de gabinete, deputados cassados e tudo mais. Um festival de atrocidades. Eis que ao lado uma fotografia de um desses políticos me chamou deveras a atenção. Um sujeito bem vestido e portado, cabelos sempre bem penteados e pelo que pude notar com ares reais de aristocracia. Apesar de trabalhar desde a infância, e sendo de origem humilde, a aristocracia sempre me fascinou. Aliás, quem nunca se viu imitando por algum segundo o andar de um lord ou fazendo trejeitos para uma câmera na foto de família? Pois bem, sou igual a todos vocês. Aquele homem era a representação daquilo que gostaria de ser.
Passado esse momento de platonismo eleitoral antes da data continuei minha leitura até o término das páginas. Coloquei meu jornal já ultrapassado sob a mesa e parti para uma caminhada breve até o parque próximo ao meu apartamento. Chegando a portaria, deparei-me com o porteiro um pouco irritadiço, perguntei a ele o que havia acontecido porque preciso saber de tudo que está ao meu redor. Ele começou a me contar sobre atitude de uma moradora que o ofendeu moralmente dizendo que o tal era um reles empregado. Tudo isso porque errou ao entregar uma correspondência para outra pessoa, e no seu esclarecimento sobre o acontecido pediu desculpas. A tal senhora não aceitou os pedidos. Bem, tentei convencê-lo que o melhor a ser feito era ir a uma delegacia mais próxima e registrar um boletim de ocorrência com ofensa moral. Disse isso porque acredito piamente nas instituições policiais ao ponto de oferecê-las como suporte em caso de danos contra a moral, bons costumes e a propriedade. Ele não me entendeu bem e disse que não era pra tanto, então sai deixando-o falar sozinho.
           


            Fiz uma breve caminhada e voltei para casa. Liguei minha televisão e para meu espanto uma notícia de espancamento de um morador de rua. O repórter perguntou ao acusado o porque de tamanha atrocidade, ele logo respondeu que se tratava de uma limpeza da região: pobres, sujos e maltrapilhos levaram doenças e degenerações pelo bairro. Ao ouvir atentamente o relato dei razão ao rapaz. Do que adianta tentar melhorar o bairro se sempre alguns desses aparecem por ali com seus vícios e traquinagens? Por um instante percebi que os cidadãos estavam agindo, ao contrário do plano político em que os representantes do povo acobertavam e induziam colegas para práticas de cunho duvidoso. Recebi um telefonema de um amigo me dizendo sobre o inicio da campanha. Eu gosto muito de política, e sigo a máxima aristotélica que o homem é um animal político. Mas certas vezes, como no caso do morador de rua, sinto-me mais um hobbesiano e cada homem para mim é seu próprio lobo. Deixemos isso de lado, o que nos importa são as eleições. Ele me dizia sobre um candidato que poderia despontar, seu nome era S. e estava atento aos problemas sociais. Desliguei o telefone e voltei a ler meu jornal e ouvir minha televisão.
Como era domingo resolvi fazer umas compras no mercado próximo a minha casa. Tomei um belo banho, me aprontei e segui com meu carro, apesar da pouca distância. É que em dados momentos me sinto confortável ao volante e por vezes poderoso, confesso. Pois bem, terminada minhas compras segui em direção da fila e para minha surpresa quem fazia compras no mesmo espaço, tempo e temperatura que eu, era sem mais, o político que apareceu na foto do jornal. Fui em sua direção cumprimentá-lo pelo ato corajoso de investigar crimes contra a nação e tudo mais. Além de tudo, usei de minha verborragia para elogiar-lhe. Ele ficou ruborizado é verdade, mas tratamos os assuntos com certa elegância e distanciamento o qual é extremamente pertinente quando não conhecemos o nosso interlocutor. Fizemos nossos pagamentos e pedi-lhe que dissesse seu nome pois havia esquecido. Era S. Conhecido pela força e dinâmica nos meios políticos e capacidade de oratória incrível. Despedi-me dele com o forte aperto de mão. Retornei para minha casa com ares de felicidade, e com a alma lavada por conhecer aquele que limpou a escória corrupta do poder legislativo. 
            Na manhã seguinte, logo às oito e meia da manhã sou surpreendido pelo trânsito caótico na avenida próxima à minha residência. Saí bem cedo de casa tomei um café expresso na rua e o que parecia óbvio na minha modesta percepção era a quantidade de carros e ônibus pelo local. Esse negócio de ônibus em todos os cantos é aquele arrepio só: sempre abarrotados de gente mal educada que reclama de tudo e ainda por cima que andar de maneira gratuita no transporte. Ao lado do meu carro dezenas de milhares de motocicletas cruzando os caminhos sempre com aquele barulho horroroso das buzinas descalibradas, além disso a quantidade inimaginável de pedintes e outros degenerados espalhados por todos os cantos. Era a miséria que assolava a população preguiçosa.
           

            Já no trabalho li o jornal que dizia sobre os candidatos na eleição: suas coligações, fundos de investimento e tudo mais. Tudo às claras como nunca dantes. De modo amplo sempre entendi a perspectiva política por dois lados: as dos vencedores e as dos perdedores. Eis que encontro o tal S. que havia conhecido no mercado. Li sobre sua carreira política e compromisso com a ética e a moral. Novamente fiquei fascinado. Numa planilha bem desenhada, havia o programa de governo e as propostas dos candidatos, que em nada diferiam em alguns pontos é verdade. Mas eram coisas superficiais que não estavam na discussão do bem público, do cidadão, somente se apresentavam como caráter particular que em nada interferia na vida de alguém interessado na sociedade como um todo. Que elementos eram esses? Ah sim. Questões sobre habitação popular, centro de clinicas populares, essas coisas. Focos específicos em determinados grupos que não acrescentariam em nada a maioria da população carente de bons serviços públicos. Havia também as datas de comícios de todos os candidatos. Logo, anotei num canto de papel sobre aquele candidato que me despertou tanto interesse.
Chegada a data acompanhei o comício. Era espantosa a reação dos participantes dada a eloquência de nosso candidato. Ele tomava as crianças moribundas no colo, oferecia a mão aos mendigos, brincava com os cães sarnentos, suava ao lado dos músicos da bandinha. S. era tomado do espírito publico, do bem estar coletivo. Coberto  pela dignidade e sobretudo seu humanismo ao se relacionar com gente tão simples. A cada passo dado pela rua, uma multidão se acotovelava incessantemente para tocá-lo.  Dizia entre outras coisas que não fazia promessas eleitorais, e sim, compromissos com o cidadão, sentindo-se bem com aquele momento. Os assessores e jornalistas se abraçavam numa convulsão frenética. Era um tratado social, acima de tudo. Funcionava como uma orquestra: o coro, os solistas, no final as palmas, mas as cortinas não se fechavam: um belo espetáculo. As crianças sem casa eram abraçadas por aquele sujeito com tamanho afeto que lágrimas escorriam dos olhos dele. Desculpe lembrar-me desses acontecimentos de forma poética, mas é o que cabe no momento. Não existe outra exemplificação possível. Em meio a tudo isso, encontramos lideres religiosos com toda sua ousadia política em desfilar lado a lado com a população a abençoar os enfermos e convalescentes. Após passar o dia inteiro em campanha e estar in loco nesse momento histórico, ao retornar à minha casa e ligar a televisão vi uma noticia dizendo da desistência de pelo menos três candidatos da campanha, e nesse momento eles se uniam com S. pela moralidade política e luta pelos direitos do povo. Fiquei perplexo ainda mais quando ao analisar as candidaturas vi que em nada divergiam das propostas do meu candidato, ganhávamos em corpo eleitoral e mais apoio político.  E os outros candidatos? Se uniram também num bloco, mas as suas expectativas eram tão menores que não cabe descrevê-las aqui. Passando brevemente por uma de suas propostas podemos dizer sinceramente que pão, terra e ouro não é mais nenhum tema de campanha. Isso já caiu em desuso faz um bom tempo. Ninguém se interessa mais por isso. Os indivíduos querem algo a mais: transporte, cultura e lazer. Isso é o que realmente importa.      
Os dias estavam passando lentamente e florescia em mim um sentimento cívico que não podia conter. Tanto no trabalho quanto na fila do cinema destilava todo meu conhecimento político e defendia com unhas e dentes meu candidato apresentando as contradições dos partidos adversários. O gosto pelo bem público deriva da provocação daqueles que nada entendem sobre aquilo que dominamos, ou seja, quanto melhor falarmos, melhor a forma de conduzi-los segundo nossos princípios e ideais. Se ao menos três pessoas fossem tocadas com a minha verdade estaria um tanto comovido de fazê-los enxergar uma nova possibilidade. Apresentava meus pontos de vista como se fossem o suprassumo da sabedoria e são. Adquiri ao longos dos anos um poder de convencimento tal que até a empregada doméstica da vizinha sonhava com um mundo igual ao meu. Nisso sou bom, confesso. A campanha tomava rumos democráticos e de facilidade de estilo: palavras breves que incendiavam a população nos comícios e a propaganda nos rádios, panfletos e televisão. Para sexta-feira estava marcado um grande comício com todos os candidatos da coligação, inclusive os desistentes que aderiram a candidatura de S.
Tudo preparado com carros, bandeiras e uma parafernália monstruosa. Faltava pouco para o primeiro debate entre os candidatos. O bloco opositor começou a difamar a campanha de S. Não era possível... Além de tudo eram anti-democráticos. Porque os maiores valores da democracia são a verdade e a liberdade, e não a libertinagem de se falar o que quiser sem provas. Diversos crimes eram atribuídos ao meu candidato, mas vejam uma coisa, nem uma linha sequer era escrita em qualquer jornal grande ou de bairro. Somente os infelizes que seriam derrotados viam problemas onde só havia esperança e fraternidade. Pois bem, como de costume S. tomou as crianças miseráveis no colo, que tinham um odor terrível e as beijava freneticamente. Os cachorros esquálidos cruzavam todas as pernas em troca de carinho. Uma fanfarra fora armada na hora com os próprios moradores da região. Pessoas espremidas dentros dos ônibus que cruzavam as avenidas nos cumprimentavam com ardor e emoção: os fotográfos disparavam suas camêras. Os sorrisos eram fáceis, ternura no ar. Caminhei lado a lado com S. Discutimos algumas questões sobre o programa de alguns pontos que não compreendia muito bem. Ele me explicou tudo detalhadamente ponto a ponto. Era uma figura incrível e carismática, verdadeiro líder. Enquanto andávamos por um largo um popular se aproximou bem lentamente em nossa direção, carregava consigo uma carroça bem judiada e com os pneus estourados. Nos fez uma pergunta breve:
- O que podem fazer por mim que sou pobre?
De modo ligeiro e sem precisar de muito tempo S. lhe respondeu:
-                   Amigo, lhe daremos uma carroça nova, com pneus cheios e modernos, além de um ajudante para dividir as tarefas. Será nossa forma de governar: onde há um pobre sempre haverá outro, então dividiremos os serviços, mas com coisas e modos mais modernos e de fácil utilização...
-                    
O senhor ficou emocionado lembrou-se da família e a miséria que assolava sua gente. Logo S. lhe puxou pelos braços e o abraçou como um irmão. Aquele sujeito maltrapilho e cheirando à cachaça havia mudado minha visão de mundo: de agora em diante é preciso ajudar essa gente sofrida dando coisas novas para que trabalhem sempre e conquistem o pão de cada dia. No abraço de S. com o senhor, um cerco de fotógrafos disparam ao mesmo tempo seus flashs. Aquilo tocava minh´alma como um solo de piano na nona de Beethoven. O senhor continuou nos acompanhando enquanto caminhavámos A todo instante milhares de pessoas sacudiam suas bandeirolas e gritavam enlouquecidas pela atenção de S. o povo, enfim estava próximo ao poder. O que os teóricos sobre política tanto pregam acontecia diante de meus olhos nitidamente, e sem a menor intenção de ser passageiro, e sim, eterno.
Chegou o grande momento do debate eleitoral. Todos os candidatos reunidos dentro de uma emissora de televisão. Outros debates já haviam acontencido, porem somente nessa emissora o ar de credibilidade pairava no ar: poucos órgãos da imprensa tem reputação o suficiente para informar o público. Antes do inicio sentei-me na primeira fileira observando atentamente a movimentação de convidados, jornalistas e os candidatos. Ao meu candidato entregaram uma série de pastas contendo diversos papéis, ao que pude perceber, cada pasta contendo uma infinidade de papéis com todos os gastos públicos, orçamentos previstos... Disso fiquei sabendo pelo meu colega de partido. Com tantos dados e conhecimento, era impossível qualquer tentativa de enganar o eleitor.
Todos ao seus postos, microfones devidamente ligados. Iniciou o debate. S. tinha pouco mais de uma hora para convencer o cidadão de sua competência diante dos holofotes. Os candidatos da coligação presentes no debate faziam perguntas sobre o programa. S. respondia com tranquilidade e destreza. O  candidato de oposição estava um pouco irritado com o preciosismo dos colegas em fazer perguntar tão bem acabadas exigindo apenas o conhecimento de causa de S.
-                   O que vocês estão vendo nesse momento senhores e senhoras é um conchavo: não há debate e sim um candidato pergunta ao outro sobre suas qualidades de governo, o qual sabemos, que estão todos coligados.
-                   Isso é um absurdo. Vejam telespectadores a desconfiança de um homem. O desequilibrio em sua fala. Não adianta o ataque aos meus colegas e a minha pessoa. Isso não vai render-lhe condição alguma no dia da eleição. É por isso que digo: é extremamente necessário ter coragem, sangue-frio e acima de tudo, equilibrio para admnistrar uma cidade e seus cidadãos. Você aí em casa sabe muito bem disso, onde faltam propostas, sobram ataques. O meu compromisso é com você contribuinte... Isto posto declaro ao meu colega de debate e opositor que reflita o quão grave é essa acusação de conchavo: estamos apenas apresentando ideias de governo e se meu plano de governo é forte o bastante para que seja tão elogiado pelos meu coligados, então possuo as qualidades necessárias para o posto de gestor público.
            S. arrancou aplausos da platéia. O mediador ficou incomodado com a atuação dos presentes e pediu silêncio, mas com um sorriso no rosto. No dia seguinte os jornais já clamavam pela vitória de S. Faltava pouco tempo para o primeiro turno das eleições e ele havia disparado conquistando mais da metade dos votos. Algo que antes parecia impossível. As parcelas de forças dos partidos estava conseguindo algo inédito: eleger um candidato com larga vantagem, com forte apelo popular e acima de tudo, incorruptível, no primeiro turno. Uma grande revista já colocava-o na capa como uma grande “timoneiro” de nossa nação. Na verdade houve um excesso, mas depois de alguns anos eu pude notar que aquela chamada era na realidade a nova esperança das grandes corporações: por ser extremamente democrático S. daria a esses grupos total abertura para investigações jornalisticas aos oposicionistas, maior controle sobre os gastos do governos, exceto o do seu, e qualquer documento que precisasse de consulta pública a partir de uma pré-consulta do próprio S. Era a verdadeira e tão sonhada liberdade de imprensa. 
            Chegada o data da eleição o que era previsto aconteceu e S. tornou-se prefeito. A noite os noticiários destacavam sua vitória como “um cometa de esperança, entre as estrelas já apagadas num céu obscuro”. Assisti pela televisão seu discurso de posse, sob os olhos atentos dos presentes e não menos atentos das lentes das camêras. Aquele homem que havia conhecido tão próximo, não se esqueceu de quem criou as bases para sua eleição: agradeceu aos amigos, aos familiares, aos filiados; prometia acima de tudo não nos decepcionar.  O meu sonho de uma política honesta havia se concretizado. Logo após esse anúncio fomos todos à casa de S. saudá-lo pela vitória esmagadora. Lá encontrei os diretores dos telejornais com suas esposas e amigas do interior; diretores das revistas; fotográfos e jornalistas entusiasmados com as convidadas especiais... Era um bom clima. Aos derrotados cabe somente uma nota muito triste: no dia seguinte à eleição possuíam um documento forjado sobre o investimento de grandes empresas, veículos de comunicação, artistas,  instituições religiosas, feitos na conta bancária de nosso candidato. Digo ser uma nota triste porque na democracia o importante é a ação civica do cidadão pelo voto e zelo pelo bem público. Além do mais, o que torna a democracia tão empolgante em certos aspectos é que os derrotados de hoje são os vitoriosos de amanhã. Esse jogo incessante de ganhar e perder tem que fazer parte do imaginário coletivo. E o cidadão deve estar consciente de seu poder de escolha. Pediram a anulação da eleição, fizeram caminhadas e como de costume acusaram o nosso partido de pregar uma limpeza social. Caros amigos: injúrias atrás de injúrias. Tranformar bairros inteiros, antes esquecidos pelo poder público, em zona de lazer, tirando as casas miseráveis e as transformando em novos empreendimento imobiliários, é fazer limpeza social? Pelo contrário, isso é dar dignidade para quem vai morar no bairro. São as melhorias necessárias que são implantadas de degrau em degrau que possibilitam a todos melhores condições de vida. Depois de tantos ataques ele se silenciaram pela pressão popular: os jornais descobriram que o líder do partido oposicionista era professor universitário, divorciado e ainda por cima atéu. As vozes oposicionistas cessaram e nosso governo pode trabalhar a vontade.       
            S. indicou para os cargos de governo todos aqueles que estavam na festa em sua casa naquela noite gloriosa. Nada mais justo, afinal haviamos trabalhado tanto para aquilo se converter em realidade, que não deixariamos qualquer um tomar posse de cargos de confiança. Em um ano de governo, nossa política de habitação e transporte tranformou bairros inteiros em centros de comércio e as pessoas não precisavam se deslocar tanto pela cidade para trabalhar e ter um pouco de lazer. Em cada um desses bairros as intituições religiosas se proliferaram garantindo o bem-estar social e  pacificando a região. Nesse mesmo ano, bairros inteiros se fortificaram para garantir a democracia em seus muros e evitar de algum modo uma invasão de bárbaros que tentariam atacar o cerne da família e da propriedade. À noite não havia circulação de qualquer um: apenas pessoas autorizadas poderiam perambular pelas ruas. Assim, conseguimos diminuir drasticamente os gastos com segurança pública, e cada bairro possuia seu próprio núcleo policial, pórem sob a orientação de S.
            No final do segundo ano era epóca de eleição para presidência e governador, S. após um discurso emocionado de dentro de seu apartamento disse que concorreria àquelas eleições para zelar pelo povo contra aqueles que insistiam em acusar nosso governo de dar prioridades aos ricos e transformar a pobreza em status. Eram vôos maiores para uma passáro que havia crescido e precisava de novos horizontes.
            Nessa eleição funcionei como orientador de campanha montando nosso plano de governo. Viajava pelos lugares mais industrializados e apresentava nosso política de impostos mais baixos às grandes industrias. Conseguimos em seis meses de campanha um apoio maciço dos industriais. Precisava também convencer os latifundiários sobre nossa política de pacificação sobre a terra, e como proposta delimitariamos as grandes, médias e pequenas áreas em troca de pagamento dos impostos sobre o are, ou seja, para a produção seria necessário pagar pelo are com o intuito de produzir sobre ela. Em tempo recorde obtivemos apoio dos latifundiários e a campanha continuava. Os jornais descatavam nossos comicios pelos estados. A oposição tentava a qualquer custo barrar nossa conquista forjando como de costume documentos imaginários sobre os possíveis atentados contra a democracia e os direitos sociais. Ora, por que atentariamos contra algo que acreditávamos? Era muito mais justo para nós manter a democracia, pois, é pelo maior acesso ao povo e maior divulgação nos aparelhos democráticos que mantinhamos nossas bases políticas e aproximação com o cidadão. Nunca atentariámos contra algo tão precioso, necessitavamos de ampla participação popular em todos nosso plano de governo; mas isso ele não queriam ver. Formadas as bases, pelo jornais fomos informados da intenção de voto com esmagadores sessenta porcento de intenção de voto. Faltava pouco para alcançarmos a vitória final. A eleição seria naquele final de semana.  Não mencionei o debate, porque só havia um candidato de competência que era o meu. Todos presentes estavam atentos às suas palavras tão profundas e cheias de verdade. A oposição estava desconcertada, afinal cada tentativa de desestabilizar nosso programa de governo era desmentida com alto e bom som.

            Pois bem, antes de chegarmos ao domingo da eleição, tudo transcorria tranquilamente até que recebi a ligação de S., sua voz estava um pouco cansada, e nisso eu entendia afinal de contas, eram longos meses trabalhando por sua candidatura. Pórem, em uma de suas falas me disse da intenção dos opositores em tomar o poder e já estavam se armando para isso. Duvidei imensamente dessa afirmação, afinal de contas eles eram tão poucos que mal aguentariam uma semana de luta contra o governo. Ele me disse que havia avisado aos comandantes do exército sobre isso e que eles tomariam medidas cabíveis.
            Na manhã de domingo ao ligar meu televisor, os jornalistas apresentavam um documento em que havia vários nomes de políticos opositores que não tinham casa própria, usavam o serviço de saúde público e mantinham seus filhos em escolas públicas. Aquilo era o fim. A população ficou indignada com tamanha afronta. Eu me perguntava se aquilo era tipo de gente que poderia exercer algum tipo de cargo público.  À noite nossa vitória foi confirmada apesar desse pequeno distúrbio. Os derrotados acusavam nosso programa de beneficiar o latifúndio e aumentar os cofres do grandes industriais, que não havia espaço para um ampla reforma agrária quanto menos melhores condições de trabalho para os operários das industrias. Ora, quanta distorção dos fatos. Como havia falado anteriormente nosso programa tinha como meta incrementar a industria diminuindo os impostos. Os salários quem deveria decidir eram os empregadores e os sindicatos, que estavam sob nossa tutela, pois, era um dos braços para maior aproximação com os trabalhadores. Em relação ao latifúndio, outra mentira: nossa proposta era fazer com que cada are de terra fosse pago, ou seja, faríamos uma reforma a partir da compra dos ares poís todos terrenos seriam públicos; obviamente alguns poderiam comprar mais ou menos, pórem a compra era aberta a todos os interessados. Algo que pertence à democracia que é a participação de todos no bem público e a garantia da propriedade para aqueles que querem por ela pagar.
            Terminado esse prazo de brigas entre os partidos, conseguimos em um ano acabar com o analfabetismo: os livros didáticos eram produzidos por duas editoras comandadas por dois diferentes jornalistas de renome. Não havia mais escola pública, era cobrada uma taxa de cada cidadão para a matrícula e aprendizagem. Percebemos que com isso poucas pessoas conseguiriam se matricular e utilizamos escolas-bases que eram entre outras coisas lugares de cultos religiosos aos finais de semana. Nessa parceria entre conselhos religiosos e Estado, desenvolvemos o aspecto humanista do ensino. Dois jornalistas de um grande grupo de comunicação que além de tudo eram intelectuais proporcionaram entre outras coisas a criação de um plano educacional em todos os níveis de ensino, inclusive o universitário. Limpamos a sujeira deixada por outros governos, ensinando de um novo modo as nossas crianças e adolescentes para que no futuro, se tornam-se adultos íntegros e responsáveis. Em dois anos certos ministérios foram excluídos de nossas pastas para evitar gastos em demasia. A primeira pasta a cair foi a da Cultura: não era mais necessário levar ao público manifestações culturais como teatro, dança ou cinema. Cabia a cada estado desenvolver, sob nossa tutela e a partir de planos de governo, suas atividades culturais. assim em dois anos as atividades teatrais foram suspensas, pois não havia público, os cinemas foram fechados e trocados por salas de livros religiosos e manuais do consumidor, pois, precisavamos alertar ao cidadão sobre seus direitos e deveres dentro de nosso governo. Nesse período, não havia mais nenhum desempregado na nação: todos tinham atividades fixas e determinadas pela avaliação de um conselho designado pelo presidente. É claro que nem todos queriam trabalhar em nossos postos, a esses convidamos a se retirar do país com todas as despesas pagas por um ano no exterior. Mas o destino sempre prega uma peça: por vezes navios abarrotados afundavam e aviões cargueiros eram abatidos por outras nações. De alguma forma gerava uma leve crise diplomática, sempre contornada com ajuda financeira e militar. Nosso governo democrático possibilitou a todos educação, habitação, emprego e saúde. Nossos hospitais estavam sempre vazios, pois os médicos eram destacados a cumprir 36 horas seguidas de trabalho o que de alguma forma deixava o cidadão com orgulho do serviço prestado pelo Estado, contudo havia uma pequena taxa a ser paga que era revertida para a instituição de ensino superior que mais formasse médicos por ano. O volume era abundante, mas resolvemos de forma rápida: como nem todos podiam pagar pelo hospital e quanto menos pela universidade, construimos universidades técnicas nas areas biológicas e exatas, assim em pouco tempo de curso já estaria com plano de carreira pronto. Aos cargos superiores estavam destacados para aqueles que cumprissem os longos anos na universidade padrão. No terceiro ano de mandato, calada a oposição, começamos nossos testes com armas quimicas e nucleares, pois precisavamos de energia limpa, sustentável e segura. Com a ajuda de um bilionário industrial, um milionário do agronegócio e bom empenho dos trabalhadores nas usinas conseguimos desenvolver um tipo de energia à base de urânio e antrax. É bem verdade que algumas baixas entre nossos trabalhadores aconteceram, mas são apenas número frios e não remetem ao calor da  realidade. Num erro de cálculo tivemos que evacuar uma cidade inteira pois houve uma explosão de um simples reator. Salvamos todos aqueles que haviam pago todos seus impostos de maneira correta e sem atrasos, afinal a democracia deve ser sustentava a partir de seus atos em nome do bem estar comum. De maneira heróica os homens do exército entregaram sua vida e transferiram dez porcento da população de um estado para outro. Infelizmente aos demais nada conseguimos fazer, só nos restou algumas homenagens àqueles que lutaram até o fim pelo sonho de tornar o mundo um lugar sustentável sem a exploração desmedida da natureza. Os órgãos internacionais nos saudaram pela tentativa humanitária de reverter esse erro crasso contra nosso próprio povo quando anunciamos que trocariamos essas medidas perigosas por algo mais relevante: cortamos energia de cidades que pouco gastavam e nada produziam. Nossa economia estava indo bem no começo do quarto ano de mandato, não poderíamos parar. Os recursos hidricos também foram desviados para as cidades que mais produziam e com isso o mundo não estaria sob o fantasma da fome. Tudo bem que isso dizimou quase um quarto da população, mas todas essas medidas foram votadas por plebiscito e contava com ampla participação popular, esses são os aspectos de um governo democrático que esta diretamente ligado com seu povo e sabe de seus anseios. Era nosso compromisso de campanha ouvir as necessidades da população. No final do quarto ano o momento de um nova eleição e para sustentar a democracia é preciso a alternância de poder. Não queríamos deixar que nossos projetos fossem abandonados, pelo contrário, assumimos a intenção da reeleição de nosso candidato que fora confirmada pela participação eleitoral. Vitoriosos novamente poderiámos continuar com nossos projetos.
            Mais uma vez o povo nos escolheu e de forma limpa conquistamos seu coração. Escrevo esse final de forma breve, pois ainda tenho muito o que fazer nos anos vindouros. Apesar da vitória nas últimas eleições, os setores de oposição tem crescido absurdamente. No plano econômico estamos relativamente bem, é claro que com alguns contra-tempos, como greves nos serviços básicos, mas para isso contamos com um aparato militar de dar inveja às potências do mundo. Não há negociação com descontentes. É preciso ter entendimento de que numa democracia deve se trabalhar pelo todo e a liberdade de ir e vir está garantida: se não está contente deixe seu lugar para outro que virá e fará seu trabalho com mais afinco e contentamento. Na saúde, não há mais filas nos corredores e quanto menos morte por erro médico: as doenças atacam a população, que acabam por morrer em casa no seio da família. Na educação, meu maior orgulho, enfrentamos um momento de disputa interna para a formulação de novos materiais didáticos: de um lado os militares mais eruditos e de outro os teólogos, qualquer um dos lados vai saber muito bem o que fazer para levar ao estudante o prazer do ensino, sem a obrigatoriedade de pensamento.
            Com a morte de S. no final do mandato, o interior do partido começou a fervilhar para saber quem seria o candidato na próxima eleição. Diversas correntes discutiam propostas e propunham novos caminhos políticos. Todavia, numa dessas investidas houve uma ruptura. Então ficamos divididos em duas correntes: uma mais ao centro e outra mais ao extremo, pórem nosso pensamento era semelhante. Nessa ruptura um novo partido. Mas seus líderes eram figuras conhecidas do meu bloco de governo.  Outros partidos começaram a se organizar, mas tinham como base fundamental de seu programa de governo nossas diretrizes politicas. Entre eles eu destaco C. que era um excelente jornalista e redator de nosso manual sobre direitos e deveres de consumidor. Lamento que esses nobres homens tenham saído tão cedo de nosso partido para se candidatar isoladamente, sempre lembro a todos meus queridos amigos, leitores e empregados que a maior força existente num governo democrático é a alternância de poder. Com esses homens fora de meu partido, novas alianças e coligações poderiam surgir e a alternância seria entre nós mesmo. Não havia embate aberto ou animosidade entre nossas partes. Nós sabíamos as regras do jogo  Quando do esgotamento de um candidato a chance de outro, e porventura contando sempre com nosso auxílio e assim, de uma forma bem democrática, nos mantemos no governo fazendo melhorias necessárias que beneficiam a população em larga escala.  Vez ou  outra surge algum oportunista querendo desmascarar tudo o que foi feito com trabalho e suor do nosso governo. O que posso dizer a eles? Não adiante tentar mostrar as contradições que existem no mundo. Os poucos que entendem suas palavras não fazem coro aos nossos poderes democráticos. Com a liberdade de imprensa garantida, liberdade individual de ir e vir, garantias sobre qualquer produto na ato da compra, mantendo a família como essência do Estado, a religião como fonte de informação e discussão política e acima de todas essas, a segurança da propriedade privada, ninguém poderá nos atacar com qualquer especulação rasa. O que resta ao cidadão saber é que o seu direito de existir está preservado sobre a democracia sem precisar perder seu precioso tempo com assuntos públicos, por isso ele elege seus representantes que tratam de seus anseios coletivos. Por fim, deixo essas minhas breves recordações. Nosso partido está há vinte e cinco anos no governo e muita coisa precisa ser feita . Nosso trabalho para o bem-estar da população não pode parar jamais e enquanto eu respirar defenderei com unhas e dentes que esse trabalho represente cada um daqueles que me depositou sua confiança em forma de voto. Saiba que estou honrado em representá-lo e que por você ainda encontro razões para continuar: esse é o meu compromisso.