sábado, 25 de agosto de 2012

O grito dos macacos


O GRITO DOS MACACOS
     A Neal Cassidy, por quem me apaixonei 60 anos mais tarde
eu vi a juventude do meu país perdida em relógios rolex, em rolos
         de colares brancos, vivendo em bancos em bandos brandos
eu vi jovens rasparem seus cabelos em saudação ao progresso, criarem
         músculos de cavalos em suas pernas de grilo, em suas cabeças
         moles como pequenas bolas, em suas mãos esquecidas de carícias,
         em seus peitos de falso plástico, em pés em cima do chão e
         nada além
eu vi
         vagarem e vagarem por shoppings de amor em vestidos floridos
         e falarem e falarem em celulares que atiram raios e
         ratos que criaram polegares opositores e colocaram
         ternos que encaixavam perfeitamente em seus pelos
eu vi todos e vi todas miarem por atenção em frente a seus computadores
         solitários - essas máquinas primorosas da raiva! -
eu vi mais pão com ovo que peito no prato e pau na mesa
eu vi meninas com grandes olhos pretos sem nada dentro
eu vi arco-íris em cabelos e sonos em branco e preto
eu vi o festival do ego acanhado marchando pela Avenida Central!
vi crianças apontarem e rirem para homens que fumavam cigarros
         de paixão sozinhos nas calçadas
vi meninos gritarem de medo porque uma negra rasgou sua pele
         em protesto ao uso de absorventes
eu vi negras queimarem suas cabeças com a marca de ferro da megera
         caolha do dólar heterossexual
eu vi negros caírem de joelhos nas ruas brancas em submissão
         ao poder falocrático dos prédios de papel
vi jovens casais que se arrastavam atrasados por matrimônios
         e manicômios
vi gostosos que dançavam ao gosto do som de amargo e pimenta e
         gostosas que se batiam com cascos de cerveja no meio
         de suas orgias finais em falta de seus órgãos genitais
.
onde foram parar os caralhos magníficos que fornicavam noite e dia
         e noite e dia na praça na rua na esquina?
onde estão os maravilhosos jovens viados, os transviados, que rolavam
         e rolavam por um canavial de rolas e baseados?
onde, eu me pergunto, estão os que fazem de tudo, comem fogo e bebem
         e bebem e bebem a gota a gota da gota da vida
onde estão as jovens que escondem seus pequenos poetas em seus pequenos
          bolsos e lambem os dedos e ossos dos homens que comem
?
(eu perdi de vista
    perdi de vista os nossos jovens.
 eu perdi em todos os sentidos
    perdi todos os sentidos
    perdi o sentido
    perdi sentido
    perdi.)
sumiram as moças feitas de lodo e grama
abundam os moços feitos de esgoto e grana
          bonitos demais sob o sol de inverno simpáticos demais
          com as velhas árvores da amazônia sorridentes demais
          com dentes de metais artificiais demais legais demais
          sexys demais inteligentes demais bondosos demais
          PIEDOSOS DEMAIS:
moços e moças que somam somam somam e somam e nunca dá mais,
abundam as televisões na esquina abundam os sorrisos mijados na latrina
         abundam as bostas de cavalos nos burgos universitários
         abundam bundas desumanas
         (sobra melancia pra fodê mas não sobra pra comê)
abundam as florestas de pernas falidas nos pavimentos dos meus prados
         de asfalto
.
onde foram parar aqueles jantares esfarrapados que eram servidos
         e feitos só de pensamentos?
onde foram parar aqueles jovens que deixavam a vida pendurada e
         suspensa por uma corda na nota Lá, e a deixavam se extinguir
         em ÊXTASE
onde foram parar? aqueles que trepavam e se estrepavam e trepavam
         e paravam para vomitar sangue e voltavam e trepavam e
         se estrepavam e de novo vomitavam para de novo começar?
onde foram parar as jovens que se deixavam abraçar pela noite fria
         e gozavam nos muros das ruas sem saída
onde estão as que provam de seu próprio veneno e cospem cospem o Satanás
         em GLÓRIA GLÓRIA HALLELLUIA
onde estão as balas de canela da minha infância chupadas em companhias
         azedas e bêbadas de meus pais fumantes que me trocaram por um
         maço de cigarros
onde estão os cigarros de chocolate que viciavam pequenos negros e
         erigiam casas de Sapê e cadê meu chocolate de mescalina
         que era comprado na esquina com um senhor bondoso de longos
         bigodes e sorriso carinhoso
onde, onde estão as orgias infinitas de mil homens e mil mulheres e duas
         mil de qualquer tipo se perfurando e se lambendo num coro
         em crescendo em sangue pulsante em sangue esguichando em paredes
         em intestinos em bocas em caralhos
onde estão os sonhos que não se escondem em caralhos de plástico e
         risos de marfim e pianos mudos e copos sem fundo?
(nunca mais eu vi
 um velho vestido de preto
 sentado em frente a
 um velho vestido de vermelho
 e por inverossímil que seja que isso eu veja
 - bem no meio desse poema -
 digo que pisco preto vermelho veneno todo momento
 e segrego o secreto herege do mundo entre
 computadores poéticos               e amores magnéticos
 e braços de barro                           e cabelos de ferro
                                       entre
 o velho e o novo                             eu repito e digo
                                       de novo
 o velho de vermelho                      e o velho de preto)
 onde foram parar as poetas que incendiavam museus e bibliotecas
 onde foram parar os poetas que guardavam canyons em suas barbas
 onde onde
(onde foi parar a rebeldia que não era institucionalizada regularizada
          normatizada de preço tabelado exposta em paredes frias e ainda assim   vazias
          onde, as bienais dos meus anos de ouro que nunca existiram
          onde, os anos de ouro que nunca vieram antes e sempre e nunca virão
          onde, a revolução comunista surrealista anarquista do meu
                     do seu do nosso do vosso espírito santo?)
 onde onde
 onde foram parar?
          poetas que não fazem palavras feitas de água e sal
          poetas que se escrevem sangue e gozo
          poetas que se fazem palavras carne e osso comungam
                    casca e miolo  cérebro e eletrônico
          poetas que comem poetas que comem poetas que comem poetas
                    que transcendem para alcançar algo que talvez se chame ZEN
 onde onde
 onde estão os líricos no auge do meu capitalismo? vagando por noites
         sem fim falando sem fim gritando sem fim esperneando sem fim
         suas palavras sem fim no momento desse exato instante sem fim
?

Por Caio Andreucci

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