segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Um espectro ronda o Brasil!


Um espectro ronda o Brasil!
Infelizmente é o espectro do conservadorismo

            Este breve relato de uma experiência que vivi nos últimos anos não visa ser um artigo de tom acadêmico, muito menos político, é somente um relato de breves experiências de um jovem estudante de ciências sociais, que nas horas vagas decidiu fazer teatro por diversão e a diversão ficou séria.
            Fui membro no último um ano e meio do Coletivo Partida Teatral, com quem tive a alegria de dividir momentos de grande aprendizado. Durante esse período atuei numa peça que adaptamos de Oduvaldo Vianna Filho: nossa versão chama-se Se um existe, outro some, e a peça em que foi inspirada é Os Azeredos mais os Benevides. Essa peça de Vianinha (apelido pelo qual ficou conhecido) deveria ser apresentada na inauguração do teatro da UNE no Rio de Janeiro, porém a estreia foi frustrada pelo Golpe Militar de 1964. Como nos relatou Chico de Assis, após uma apresentação nossa, ele estava próximo do teatro e deparou-se com um número expressivos de soldados em frente ao local, com armas em punho, prontos para impedir qualquer reação à tomada de poder dos militares.
            A peça ambienta-se nos rincões do sul da Bahia, onde se desenvolveu o cultivo intensivo do cacau. A produção baseada no latifúndio e na exportação demonstrava o peso e o vício da estrutura fundiária brasileira, marcada ainda hoje pela concentração das terras nas mãos dos grandes latifundiários, especulação imobiliária etc. A dramaturgia tenta mostrar esse universo agrário brasileiro, dando relevo para a relação entre empregado e patrão, respectivamente Espiridão e Alvimar. Vianinha mostra como o vínculo de amizade entre as duas classes sociais é impossível e impraticável - basta saber que no fim da peça o patrão mata o filho do camponês, acusando o menino de comandar uma insurreição contra ele. Não bastou para o trabalhador dar o mesmo nome do patrão para o seu filho, tornar o patrão padrinho do menino, não adiantou ser o melhor trabalhador, o que mais produzia, entre outras. Esta é uma redução grosseira da peça, que apresenta questões mais sutis, sobre nossa realidade cotidiana e como sistematicamente as engrenagens do sistema capitalista tentam mascará-la.
            Dentre as mais de vinte apresentações que realizamos desde o início do projeto, o grupo optou por aproximar-se de movimentos sociais e de comunidades marginalizadas pela produção cultural vigente. O que fez com que apresentássemos nossa peça em locais e situações totalmente inusitados e distante da realidade de nossas rotinas. Cada apresentação modificava nossa maneira de nos posicionar diante do cenário que encontrávamos, e frequentemente deparávamos com a total ausência de interesse do poder público por estimular a distribuição e circulação da arte e da cultura por espaços periféricos da cidade e do campo. O Estado e a empresa privada reduzem a mera coisa inútil os seus cidadãos que não tem poder de consumo, privilegiando o uso do aparato estatal e privado para aqueles que possuem capacidade de ser consumidores ativos e frequentes. A verdadeira cidadania do consumo.
            Não pude deixar de notar ao fim de cada apresentação de nossa peça um profundo agradecimento por parte de quem nos assistia, por estarmos levando um item cultural, até então distante e inacessível, reservado somente a intelligentsia brasileira. Esse agradecimento e identificação que a peça gerava nos trabalhadores, estudantes, donas de casa, agricultores, entre outros, causava em mim um misto de alegria, tristeza e indignação, pois precedido do agradecimento, havia sempre uma fala que trazia o abismo que separa essas populações daquele tipo item cultural. Ao mesmo tempo era revelada um intenso e profundo desejo de ter acesso a esse bem. Os aplausos que recebíamos não eram só de gratidão, eram um sintoma de um mal que assola todo o país.
            O espectro do conservadorismo invadiu muitos corações e mentes brasileiras, mais notadamente os da classe média. Essa onda conservadora que não é tão recente assim, mas que data da invasão do neoliberalismo no Brasil, está se cristalizando através do surgimento de ideólogos reacionários e de políticos autoritários, disfarçados de progressistas. As situações que presencieis e as conversas que tive, desmentem e colocam por terra a ideia difundida de um Brasil que caminha a passos largos para o progresso: se hoje fazemos parte do bloco dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), amanhã poderemos fazer parte dos PIGS (Portugal, Itália, Grécia e “Spain”).
            Vale ressaltar que muitos grupos e coletivos estão mobilizados enfrentando diariamente o cenário nada favorável no plano nacional e internacional, propondo novas formas de ocupação dos espaços públicos, distribuição da produção cultural e de participação da população em fóruns democráticos. Assim sendo, não posso deixar de ser “pessimista em relação à realidade, mas otimista no ideal”, como preconizava Mariátegui. Termino com um singelo agradecimento aos companheiros de Coletivo que me proporcionaram a oportunidade de viver a cada apresentação uma profunda reflexão sobre teatro, arte, engajamento, coletividade, militância, luta, transformação, dialética, marxismo, capitalismo, amizade, compreensão, democracia, generosidade, política e, por fim, sobre a vida.
            Vida longa a todos e todas que pelos subterrâneos estão lutando por uma nova concepção de emancipação humana e política, nesse país de tão absurdos contrastes.

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