Um
espectro ronda o Brasil!
Infelizmente
é o espectro do conservadorismo
Este breve relato de uma experiência
que vivi nos últimos anos não visa ser um artigo de tom acadêmico, muito menos
político, é somente um relato de breves experiências de um jovem estudante de
ciências sociais, que nas horas vagas decidiu fazer teatro por diversão e a
diversão ficou séria.
Fui membro no último um ano e meio
do Coletivo Partida Teatral, com quem tive a alegria de dividir momentos de
grande aprendizado. Durante esse período atuei numa peça que adaptamos de
Oduvaldo Vianna Filho: nossa versão chama-se Se um existe, outro some, e a peça em que foi inspirada é Os Azeredos mais os Benevides. Essa peça
de Vianinha (apelido pelo qual ficou conhecido) deveria ser apresentada na
inauguração do teatro da UNE no Rio de Janeiro, porém a estreia foi frustrada
pelo Golpe Militar de 1964. Como nos relatou Chico de Assis, após uma
apresentação nossa, ele estava próximo do teatro e deparou-se com um número
expressivos de soldados em frente ao local, com armas em punho, prontos para
impedir qualquer reação à tomada de poder dos militares.
A peça ambienta-se nos rincões do
sul da Bahia, onde se desenvolveu o cultivo intensivo do cacau. A produção
baseada no latifúndio e na exportação demonstrava o peso e o vício da estrutura
fundiária brasileira, marcada ainda hoje pela concentração das terras nas mãos
dos grandes latifundiários, especulação imobiliária etc. A dramaturgia tenta
mostrar esse universo agrário brasileiro, dando relevo para a relação entre
empregado e patrão, respectivamente Espiridão e Alvimar. Vianinha mostra como o
vínculo de amizade entre as duas classes sociais é impossível e impraticável -
basta saber que no fim da peça o patrão mata o filho do camponês, acusando o menino
de comandar uma insurreição contra ele. Não bastou para o trabalhador dar o
mesmo nome do patrão para o seu filho, tornar o patrão padrinho do menino, não
adiantou ser o melhor trabalhador, o que mais produzia, entre outras. Esta é
uma redução grosseira da peça, que apresenta questões mais sutis, sobre nossa
realidade cotidiana e como sistematicamente as engrenagens do sistema
capitalista tentam mascará-la.
Dentre as mais de vinte
apresentações que realizamos desde o início do projeto, o grupo optou por
aproximar-se de movimentos sociais e de comunidades marginalizadas pela
produção cultural vigente. O que fez com que apresentássemos nossa peça em
locais e situações totalmente inusitados e distante da realidade de nossas
rotinas. Cada apresentação modificava nossa maneira de nos posicionar diante do
cenário que encontrávamos, e frequentemente deparávamos com a total ausência de
interesse do poder público por estimular a distribuição e circulação da arte e
da cultura por espaços periféricos da cidade e do campo. O Estado e a empresa
privada reduzem a mera coisa inútil os seus cidadãos que não tem poder de
consumo, privilegiando o uso do aparato estatal e privado para aqueles que
possuem capacidade de ser consumidores ativos e frequentes. A verdadeira cidadania
do consumo.
Não pude deixar de notar ao fim de cada
apresentação de nossa peça um profundo agradecimento por parte de quem nos
assistia, por estarmos levando um item cultural, até então distante e inacessível,
reservado somente a intelligentsia
brasileira. Esse agradecimento e identificação que a peça gerava nos
trabalhadores, estudantes, donas de casa, agricultores, entre outros, causava
em mim um misto de alegria, tristeza e indignação, pois precedido do
agradecimento, havia sempre uma fala que trazia o abismo que separa essas
populações daquele tipo item cultural. Ao mesmo tempo era revelada um intenso e
profundo desejo de ter acesso a esse bem. Os aplausos que recebíamos não eram
só de gratidão, eram um sintoma de um mal que assola todo o país.
O espectro do conservadorismo
invadiu muitos corações e mentes brasileiras, mais notadamente os da classe
média. Essa onda conservadora que não é tão recente assim, mas que data da
invasão do neoliberalismo no Brasil, está se cristalizando através do surgimento
de ideólogos reacionários e de políticos autoritários, disfarçados de
progressistas. As situações que presencieis e as conversas que tive, desmentem
e colocam por terra a ideia difundida de um Brasil que caminha a passos largos
para o progresso: se hoje fazemos parte do bloco dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia
e China), amanhã poderemos fazer parte dos PIGS (Portugal, Itália, Grécia e
“Spain”).
Vale ressaltar que muitos grupos e
coletivos estão mobilizados enfrentando diariamente o cenário nada favorável no
plano nacional e internacional, propondo novas formas de ocupação dos espaços
públicos, distribuição da produção cultural e de participação da população em
fóruns democráticos. Assim sendo, não posso deixar de ser “pessimista em
relação à realidade, mas otimista no ideal”, como preconizava Mariátegui.
Termino com um singelo agradecimento aos companheiros de Coletivo que me
proporcionaram a oportunidade de viver a cada apresentação uma profunda
reflexão sobre teatro, arte, engajamento, coletividade, militância, luta,
transformação, dialética, marxismo, capitalismo, amizade, compreensão,
democracia, generosidade, política e, por fim, sobre a vida.
Vida longa a todos e todas que pelos
subterrâneos estão lutando por uma nova concepção de emancipação humana e
política, nesse país de tão absurdos contrastes.
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